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Trecho de uma
entrevista de Dom Adriano para a revista de
espiritualidade “Grande Sinal” – março/abril de
1996.
"No enfrentamento da vida precisamos ter não
qualquer Fé, mas uma Fé viva, uma Fé que envolve
todo o nosso ser: inteligência, vontade, sentimento,
uma Fé que não receia nenhum desafio do mundo que
nos cerca, uma Fé que se funda na revelação de Deus,
sobretudo em Jesus Cristo, uma Fé que procura, da
melhor maneira possível, abandonar-se à vontade de
Deus, confiar cegamente no Amor do Pai, à maneira
das crianças e dos pobrezinhos. A isto nos ajuda
aquilo que chamamos de espiritualidade. Que é
espiritualidade? Franciscana? Beneditina? Jesuítica?
A espiritualidade é sempre ação do Espírito Santo,
levando-nos a uma vivência intensa da Fé, a partir
da revelação divina e dos exemplos dos santos:
a) como
cumprimento da vontade do Pai em Jesus Cristo
pelo Espírito Santo;
b) como prática da caridade fraterna
libertadora.
Minha
espiritualidade é basicamente franciscana –
espiritualidade de Francisco à qual se junta,
aprofundando, enriquecendo, esclarecendo, a
contribuição de Antônio, Clara, Inês, Boaventura,
Pedro de Alcântara, Coleta, Leonardo de Porto
Maurício, João de Capistrano, Francisco Solano,
Maria Tereza Scherer, Maria Bernarda Butler
(recentemente beatificadas) etc. etc.
Repito: minha espiritualidade é franciscana, com o
seu desafio de despojamento, simplicidade, doação.
No exercício do meu ministério acrescentei à minha
espiritualidade franciscana (que quase nunca foi
mencionada) toda a riqueza espiritual da pastoral
numa diocese difícil da Baixada Fluminense, marcada
pelo ministério da cruz na esperança da
ressurreição.
Descendo ao particular: sempre, mas principalmente
em situações difíceis, como hoje tantas vezes, temos
de centrar e concentrar todo o nosso esforço de
espiritualidade e de pastoral na pessoa de Jesus
Cristo, Deus e Homem, nosso único Salvador, nossa
única esperança, nosso único medianeiro entre Deus e
os homens. Jesus Cristo esvaziou-se da divindade,
para partilhar em tudo a nossa humanidade. Para cada
um de nós, especialmente para o bispo e o padre,
para toda a Igreja a humanidade de Jesus – sentindo
misericórdia do Povo faminto, escolhendo homens
frágeis para apóstolos, pronunciando palavras de
carinho para os pecadores, os pequenos, os
marginalizados, as crianças, dizendo palavras duras
para os orgulhosos e prepotentes – é uma fonte
inesgotável de espiritualidade pastoral.
Aproveitando de coração aberto a inspiração do
Espírito Santo e a prática de muitos irmãos nossos,
podemos escolher um trecho maior ou menor do novo
Testamento e daí tirar sistematicamente incentivos
para a nossa vida e o nosso ministério. Para mim
pessoalmente têm alimentado a chama da Fé e do
serviço da caridade (Pastoral) trechos como estes:
a) o Pai-Nosso
(Mt 6,9-13; Lc 11,2-4);
b) Mt 23,8-12, com o ponto culminante : “Vocês
são todos irmãos”,
c) o canto de Maria Santíssima (Lc 1,46-55);
d) Mt 25,31-46: o amor aos irmãos pequenos como
critério final;
e) Jo 14,1-16,15: Jesus manifesta a missão do
Espírito Santo na Igreja
f) Os hinos cristológicos (Jo 1,1-18; Cl 1,1-20;
Ef 1,3-14; Hb 1,1-4; e sobretudo Fl 2,5-11).
Desse trechos (e de
outros escritos sob a inspiração do Espírito Santo)
podemos tirar uma cristologia e uma eclesiologia que
nunca se esvaziará.
Já ressaltei, e não me canso de ressaltar, como
essencial à nossa espiritualidade pastoral a ação
total do Espírito Santo e o modelo sublime de Maria
Santíssima, a mais perfeita discípula de Jesus
Cristo. Já ressaltei e nunca me canso de ressaltar a
fecundidade inesgotável de espiritualidade pastoral
que é a celebração eucarística – pão da vida que
desceu do céu para a vida do mundo. De passagem
convém lembrar que, para compreensão, crescimento,
fecundação do mistério em nós e na pastoral se impõe
– como é difícil! – sermos pobres, sermos crianças,
despidos de todo orgulho e presunção.
A partir desta visão da espiritualidade me esforcei
em abolir toda a grandeza humana no meu ministério,
para ser somente um “irmão bispo”. Nisto uma espécie
de cartão de crédito para meus irmãos e irmãos me
cobrarem sempre o meu serviço da caridade."
Nova
Iguaçu, 30 de novembro de 1995. |